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Campeãs Ranking Queens of Poker 2017

Finalizamos mais um ano do Ranking Queens of Poker!

Apresentamos as dez jogadoras, campeãs do Ranking, que conquistaram o buyn do Ladies Event do BSOP Millions 2017, cortesia do BSOP e Poker Stars!

Parabéns à todas as jogadoras! Nos vemos no BSOP Millions! =D

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Poker Stars e Queens of Poker

Sempre buscando parcerias que acreditam na nossa iniciativa e apoiam a comunidade feminina, anunciamos nosso novo parceiro e apoiador, o Poker Stars!

Com toda a sua força e representatividade, o Poker Stars vem somar ao Queens of Poker, proporcionando mais oportunidades às mulheres.

“As mulheres estão ganhando cada vez mais espaço no poker brasileiro”, disse Sérgio Prado, gerente de marketing do PokerStars. “É um prazer muito grande ter o Queens of Poker nos nossos Home Games, para que as jogadoras disputem torneios exclusivos, fortaleçam amizades e se divirtam nas mesas”.

Sérgio Prado, Poker Stars Marketing Manager

Através de sua plataforma moderna e repleta de ferramentas, faremos as Etapas em nosso Home Game exclusivo, o Queens of Poker Brasil Oficial, com premiação garantida de cem Dólares por Torneio, cortesia do Poker Stars!

O Poker Stars também contribuirá com cinco vagas para o Ladies Event do BSOP Millions 2017 para as melhores colocadas do nosso Ranking!  Somadas às cinco vagas patrocinadas pelo BSOP, serão um total de dez vagas!

 Leia o Regulamento e participe!

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Convocação Queens of Poker

Iniciando nosso terceiro ano de existência, tentamos ao máximo buscar oportunidades para nossas participantes. Para isso, não só contamos, mas precisamos da participação de vocês.

Observem que o Queens of Poker não tem fins lucrativos, eu  e a Mercedes Henriques não temos nenhum tipo de remuneração, premiação, patrocínio pessoal, presentes/brindes/buyns ou afins. Fazemos por amor e por crer que juntas somos mais fortes, que devemos ter nosso espaço, opinar e nos ajudar mutuamente.

Não somos profissionais, somos jogadoras amadoras que investem tempo e dinheiro nesse projeto. Por isso pedimos que nos prestigiem, mostrem a nossa força, tragam mais meninas.

Você que já possui representatividade/notoriedade (independente do sexo), fale de nós, ajude-nos! A contribuição não é restrita a dinheiro. Todos podem colaborar com posts (nosso site é um canal e espaço de todos), coachings, contribuição com livros para sorteios/promoções, enfim, iniciativas que visam crescimento/aprimoramento das mulheres no poker.

Mandem seus resultados para que possamos compartilhar e que inspiram a todas nós.

Só assim, resultado de um esforço conjunto, esse projeto terá longevidade e alcançará novos patrocinadores, conseqüentemente, mais oportunidades para todas.

Nosso muitíssimo obrigado a todas as meninas e parceiros que nos apóiam e ajudam na divulgação desse projeto que tanto batalhamos para manter e crescer.

Beijos Queens, jogadoras guerreiras de todo o Brasil!

Mercedes e Lizia
Mercedes Henriques e Lizia Trevisan, fundadoras do Queens of Poker

Queens of Poker 2016: parceria BSOP

Em 2014 quando criamos esse projeto não tínhamos ideia se teríamos algum êxito. O pensamento é que nós, mulheres, tínhamos que nos unir e organizar para que tenhamos crescimento no poker. A verdade é que o Queens of Poker superou todas as nossas expectativas, tanto pelo apoio como pelo carinho das meninas.

Mas tão importante quanto o apoio das meninas é o da comunidade do poker, pois sem ele não conseguiríamos gerar oportunidades, tampouco iniciaríamos o nosso terceiro ano de existência.

Representamos menos de 5% do Field, criar do zero um projeto específico para um grupo ainda pequeno é um grande desafio. Batemos de “porta em porta” sempre buscando reais oportunidades de inserção e crescimento/aprendizagem. Sempre tivemos a preocupação de não deixar o projeto virar uma distribuidora de brindes. Nesses dois anos os prêmios concedidos sempre visaram o aprimoramento do jogo através de livros da Raise Editora, coachings com jogadores profissionais, vagas para grandes torneios online e live, incremento de bankroll. Essa preocupação vem de encontro ao objetivo do projeto, pois acreditamos que só teremos resultados importantes com estudo, experiência e volume, conseqüentemente o crescimento numérico, proporcionando que mais mulheres tenham contato com o esporte através de tantas jogadoras que nos inspiram.

É com muito orgulho que anunciamos que o BSOP é nosso mais novo patrocinador! Serão cinco vagas para o Ladies Event do BSOP Millions 2016 para as melhores colocadas do nosso Ranking!

LOGO BSOP

Convidamos a Lara Bruno Machado Campos, Diretora de Operações do BSOP, para falar sobre a parceria. Aproveitamos para agradecer a ela, pois desde o início nos incentivou, nos atendendo sempre com o profissionalismo e simpatia que são suas marcas registradas! Se nós perseveramos é graças a pessoas como você. OBRIGADA!

Lara Bruno Machado Campos, Diretora de Operações do BSOP
Lara Bruno Machado Campos, Diretora de Operações do BSOP

 

Conte-nos um pouco de sua história, quando e como conheceu o poker, como é trabalhar num dos maiores eventos do mundo, quais atividades exerce.

Lara: Eu conheci o poker no início de 2009. Nesta época, eu já trabalhava com eventos há algum tempo e havia feito uma pós-graduação no tema. Fiquei feliz em ser convidada pelo Igor Federal para organizar o “Prêmio Flop” pelo grupo Superpoker e foi aí que tive os primeiros contatos. Depois disso, ajudei a organizar a parte de produção do torneio 750K.

A minha experiência no mercado de eventos e os primeiros contatos positivos com torneios fez com que o pessoal do BSOP enxergasse uma oportunidade de me trazer para tocar a produção do evento.

Hoje sou a responsável por toda a produção e logística do evento, incluindo o planejamento e execução de tudo o que não é relacionado a poker mas, sim, ao evento em si.

 

O primeiro torneio Ladies  foi no Millions de 2011, com um total de 69 Jogadoras, a campeã  Fabiana La Foz ganhou R$ 5.250,00, em segundo lugar Kelly Zumbano e terceiro Lilian Costa.
O primeiro torneio Ladies foi no Millions de 2011, com um total de 69 Jogadoras, a campeã Fabiana La Foz ganhou R$ 5.250,00, em segundo lugar Kelly Zumbano e terceiro Lilian Costa.

 

Por que o BSOP fez do Ladies Event um torneio de sua grade regular, já que anteriormente somente em algumas etapas ocorriam?

Lara: O BSOP foi aumentando o número de torneios em suas etapas de forma bem gradual. Sempre notamos que muitas mulheres acompanhavam maridos, namorados e amigos nos torneios, mas tinham receio de se inscrever para disputar. O poker é um esporte mental que não limita a participação de ninguém. Jovens e pessoas mais velhas podem disputar de igual para igual, pessoas com deficiências físicas disputam. Oras, se é um esporte da mente, porque teríamos pouquíssimas meninas disputando em pé de igualdade com os garotos?

Por isso, no “Millions” de 2011, fizemos uma primeira experiência de um torneio 100% feminino. A experiência foi um sucesso e passamos a repetir em algumas etapas. Inicialmente duas vezes por ano.

Depois, em 2014, resolvemos adicionar o torneio à grade de todas as etapas. Hoje o Ladies é um torneio regular em nosso calendário e de lá ele não sai.

Mesa final do Ladies Event do BSOP Millions 2015. Field record de 164 jogadoras, total arrecado de R$ 61.630, 00. A campeã foi Elide Miyashiro de Abreu que ganhou R$ 14.330,00.
Mesa final do Ladies Event do BSOP Millions 2015. Field record de 164 jogadoras, total arrecado de R$ 61.630, 00. A campeã foi Elide Miyashiro de Abreu que ganhou R$ 14.330,00.

 

 

O que as meninas que desejam jogar o Ladies Event podem esperar do torneio? O que a organização preparou para 2016? Como ocorre em alguns países, homens podem participar?

Lara: Sempre procuramos formatar os torneios para quem efetivamente participa. Como nas etapas regulares do BSOP (excetuando-se o Millions), os torneios paralelos invariavelmente ocorrem nos mesmos dias do Main Event, a grande maioria das participantes do Ladies acabam sendo jogadoras que estão acompanhando alguém ou que querem ter uma primeira experiência com um torneio de poker. Isso porque as profissionais, em geral, continuam brigando pelo Main Event ou High Rollers. O Ladies muitas vezes é a porta de entrada para as mulheres no live.

Por este motivo, o torneio tende a ter uma estrutura de 1 só dia. Porém, damos a ele um cuidado especial para que também não seja algo muito rápido e que tire o prazer de jogar um bom poker, além dos mimos de sempre que preparamos, especialmente para elas.

No BSOP apenas aceitamos inscrições de mulheres no Ladies.

Presentes paras as Ladies.
Presentes paras as Ladies.

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O poker é um esporte democrático, onde homens e mulheres jogam em condições igualitárias. Qual a importância de um torneio exclusivamente feminino?

Lara: A importância é muito grande! O poker é um esporte no qual a maioria dos participantes são homens. Mas isso é só porque a maioria das mulheres ainda não descobriu o quanto ele é simples de se aprender e o quanto que nós, detalhistas natas, conseguimos extrair de vantagem.

O Ladies tem justamente a importância de apresentar um novo mundo para novas praticantes sem que elas tenham que se sentir intimidadas num mundo com uma maioria tão grande de homens.

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O que motivou a parceria com o Queens of Poker?

Lara: A perseverança das organizadoras em fomentar o grupo para a adesão de novas praticantes foi definitiva!

Fico muito feliz em poder contribuir e espero que a maioria das meninas percam o receio de disputar os torneios de poker. Mulheres são tão boas jogadoras quanto os homens e não existe razão para não querer sentar-se às mesas e buscar o bracelete. Duas já fizeram isso no M.E. do BSOP… ainda faltam mais vitórias nossas!

O BSOP está de braços abertos para receber a todas as competidoras.

Os tipos de jogadores que as mulheres encontram nas mesas.

É sabido que há diversas nomenclaturas para classificar os jogadores de poker no que tange ao estilo de jogo.

Mas a que proponho aqui é para ilustrar o comportamento dos homens quando há mulheres nas mesas. Algumas meninas podem sentir-se intimidadas em participar de eventos live justamente pelo número reduzido de mulheres. Quero tentar transmitir um pouco da minha experiência.

O pró: serve também para os regulares. Esses pintam um alvo na tua testa no quesito roubo de blinds. Temos a fama de “ultra tight”, então prepare-se para muita ação, principalmente quando estiver no BB. A ideia é que não enfrentarão muita resistência aumentando pré flop, somente quando a oponente estiver no topo do range. Se perceber que um malandro está fazendo isso, 3bet na cachola dele, use da imagem de mulher. Comigo já não dá certo faz tempo, acho que tenho cara de mentirosa ou dou muito tell – o que seria bom se viesse valor para mim com mais frequência do que o Cometa Halley.

O pavão: são uns fOfOs. Sempre gentis e educados, puxam conversa e tendem a não se envolver em mãos contigo. O fato de serem atenciosos não quer dizer que estão te cantando; alguns homens são por natureza “pavão”, sentem necessidade de se sobressair sobre os demais “machos”, exibindo-se para as mulheres afim de monopolizar a sua atenção. Como eles querem mantê-la na mesa, cuidado redobrado quando estiverem disputando uma mão. Se estão envolvidos, tem caroço nesse angu! Há uma variação desse tipo que tenta fazer charminho ao mesmo tempo em que arma AQUELA trap.

O flopeiro: com esses tu pode tiltar. Pagam os teus aumentos na maldade com quaisquer duas cartas, geralmente baixas, para te quebrar. Com a imagem “ultra tight” da mulher o plano é acertar um board baixo, que não conecte com o range da agressora. Mesmo se não acertarem, acreditam que podem puxar o pote blefando. Já ouvi falinha como “vejamos se eu consigo quebrar o teu par”. Pior é que conseguiu, call com J2s, flush runner runner. Eu tinha QQ. Maldita memória de elefante!

O tiozão: não se engane, não tem idade. São indiferentes a nós. Muito limp/call, de AA a 54. É um tipo de flopeiro, só que passivo pré flop. Quando betam ou donk betam, pode crer que acertaram. Cuidado quando tomarem 3bet. Perdi um pote grande com AQo por causa de kicker (o indivíduo limpou AK). Todo castigo para quem “limpa” AK é pouco, mas não foi dessa vez…

O Neanderthal: ao contrário do que afirma a comunidade científica, eles não estão extintos, creia. É uma espécie que acredita que o último lugar do mundo em que uma mulher deve estar é numa mesa de poker. São grosseiros, mal educados e podem chegar a ser desrespeitosos. Infelizmente, já tive algumas experiências. Ouvi coisas como “gosto de jogar contra quem sabe, não com quem só enfeita a mesa”. O fato é que para eles é inaceitável perder para uma mulher. Eu acredito que a melhor resposta seja na mesa, jogando e tirando as fichas da criatura. Mas se as indiretas virarem diretas e ultrapassararem o teu limite de tolerável, peça para que o dealer chame o floor/diretor de torneio e explique a situação. O poker é antes de tudo um evento social, deve ser divertido e prazeroso. Não é justo que tirem isso de você ou de qualquer jogador. A boa notícia é que são burros e farão de tudo para te tirar da mesa, uma ótima oportunidade para fazer fichas. Aconselho que apostem por valor contra esses oponentes porque, minha amiga, eles vão te pagar, ahhhh vão!

O Marido: para os casais, parceiros no poker, ocasionalmente cairão na mesma mesa. Aqui és tu quem manda. Pensa nisso como uma extensão da tua casa. Se ele for do tipo rebelde, nada que uma noite no sofá não resolva. “Meu marido. Meu amor. Encare isso como licença poética”. =*

O restante: quer suas fichas, como os anteriores.

O live para mim é diversão, meu momento de descontração depois de uma semana de trabalho, de rever os amigos, de dar e levar bads e rir em ambas as situações.

Convenhamos, a variância no live é absurda e fazer volume é difícil. Então, divirta-se!

Lízia Trevisan

Egopoker

Não é difícil associar a egolatria e a mitologia ao poker. A lenda mais famosa sobre o ego é o mito de Narciso, que se apaixonou pela própria imagem e morreu por isso. Narciso não simboliza apenas a vaidade, mas também a insensibilidade. A própria raiz das palavras Narciso, narcisismo e narcótico é derivada da palavra grega narke, que significa entorpecido. É como estar alheio a realidade, preso unicamente ao que você representa, à sua imagem, a idolatrar si mesmo sem perceber o mundo à sua volta.

É dessa forma que Narciso morre, após ser induzido pela deusa Nêmesis a permanecer a beira de um lago contemplando a própria imagem. Narciso foi derrotado por si mesmo.

Na psicologia, o ego é umas das partes da estrutura da mente que reúne nosso senso de identidade, realidade e personalidade, ou seja, é nossa ligação com o mundo exterior, é a via de sentido que relaciona nossa presença ao ambiente. Sob o viés psicológico, o ego em si não representa uma ameaça, mas algo que vai construir a confiança.

Já no senso comum, quando tratamos do ego, estamos falando de vaidade, da vontade de provar ser melhor que os adversários a qualquer custo. Talvez, sob esse aspecto, o ego é aquele que justifica as jogadas mais estranhas, aquelas onde fichas são armas de uma batalha vencida, onde a lógica passou longe, seja numa mesa entre amigos, seja na final da WSOP. Por ele, entramos em combates desnecessários, blefamos potes sem motivo, tentando reafirmar coragem, uma coragem impensada e impulsiva que nos tira do próprio centro, por nada. A tentativa boba de parecer mais durão, afirmar a masculinidade, um jeito irracional de demonstrar superioridade, nem que seja na força, na porrada. A velha história do torcedor que vai ao estádio assistir ao seu time preferido enquanto enche de sopapos o torcedor rival faz sentido, é a válvula de escape de egos inflamados por um orgulho irracional, em busca de violência gratuita.

Violência esta, repudiada pelas mulheres, que procuram diversas coisas nos jogos, mas dificilmente esse tipo de afirmação. Talvez a presença delas no poker possa ser uma saída para tal necessidade de afirmação, e embora mulheres sejam conhecidas por serem muito competitivas entre si, ao menos não carregam essa indesejável qualidade, mas isso já é outro assunto.

Para qualquer jogador, ego é bom quando se torna autoconfiança, do contrário, quando vira arrogância e alimenta a vaidade, traz mais resultados desfavoráveis do que benefícios. O notável é que no poker essa vaidade é fatal. A cada oponente subestimado, a cada momento que você julga o adversário e o coloca numa condição inferior à sua, você não está atento o suficiente para o mundo ao seu redor, seus alertas ficam desligados, você considera os outros previsíveis e consequentemente a chance de ser surpreendido aumenta, afinal, na outra ponta há um cara pensante, que está louco para pegar as suas fichas.

Se o peixe morre pela boca, o jogador só perde pra si quando perde para sua vaidade, quando fica mais atento ao próprio reflexo em vez de olhar a sua volta.

imagem: Shutterstock

Por uma perspectiva feminina no poker

Em junho do ano passado eu estava em Las Vegas, durante a WSOP, e aproveitava o intervalo de torneios noturnos da cidade pra me enfiar nas mesas de cash $1/$2 do Bally’s, algo que fiz repetidas vezes nesse cassino que nos hospedou. Em todas as noites que estive lá apanhando do baralho, notei dois jogadores regulares que faziam sessões longas e sempre saiam com dinheiro no bolso. Eram duas mulheres, uma mais jovem, sempre acompanhada pelo seu pai, também jogador, e outra, de origem oriental, mas provavelmente norte-americana.

Por três vezes presenciei a jogadora oriental como pivô de situações desconfortáveis e seguidas de bate-boca. Numa dessas, um senhor de estilo cowboy não poupou xingamentos depois de perder mais um pote pra ela. A falta de respeito foi logo coagida pelo floorman, mas mesmo assim ela continuava ouvindo insultos do “cavalheiro” a cada órbita. Pouco antes, ela tinha ganhado uma mão num spot confuso por conta de alguém ter mostrado as cartas antes do tempo, o que gerou os primeiros comentários negativos do cowboy, sempre atrelados ao fato da jogadora ser mulher.

Este é um exemplo do que ainda acontece, é incomum, é um extremo, mas serve para demonstrar um aspecto anterior, que é o estereótipo de que a mulher é sempre desatenta, não utiliza a lógica tanto quanto os homens, joga de forma emocional, joga na intuição. Uma mulher é café com leite, ou joga menos que você até o momento em que puxa um pote seu, e aí, quando isso acontece, a conclusão é que ela deve ter feito uma jogada errada e injustificável, ou em último caso, deu sorte. Este é parte do montante de características que refletem a ideia pronta do que é ser uma mulher nas mesas, mesmo sabendo que essas características estão presentes em ambos os gêneros. E assim, evidentemente, a repetição desse discurso o torna parte da verdade, senão toda ela.

O que incomoda é perceber que há uma inversão na forma como se coloca a questão, onde o fato de ser mulher pressupõe o estado das coisas. O poker é uma atividade de maioria masculina, onde o discurso dominante se apóia na técnica. Se um homem comete um erro por jogar de forma emocional, ou se ele perde o controle, isso se apresenta como uma falha, algo para ser corrigido. Porém no mesmo caso, se for uma mulher a cometer o erro, a diferenciação é automática, como se a capacidade feminina em lidar com aquilo fosse reduzida.

Esse é o erro de compreensão proveniente de um sexismo velado e presente no mundo do poker. Na medida em que se categoriza a mulher negativamente como um jogador diferente, os problemas delas também parecem ser diferentes, e seus erros identificáveis como típicos das mulheres. Ninguém identifica e destaca uma boa jogada feminina, apenas uma boa jogada, por outro lado, erros femininos são destacados como típicos.

Desta forma, o problema não está no fato dessas características estarem presentes e notáveis nas mulheres, o problema é que tomar isso como algo natural retira a possibilidade de discussão desses temas, afinal é algo considerado “normal”, não passível de questionamento.

Por isso é cada vez mais importante num jogo em expansão como o poker, que as mulheres se manifestem e gerem representatividade. Se a falta de mulheres é observada nas mesas, sua falta opinando sobre o mundo do poker também é notada. Felizmente temos iniciativas como o Barbarella Poker e a coluna Mulheres no Feltro da Khatlen Guse, o blog da Camila Kons no MaisEV, o PokerGirls, e o recém lançado Queens of Poker, um espaço dedicado às mulheres e fruto do entusiasmo de Mercedes Henriques, Jessica Camargo e de Lizia Trevisan, que inclusive foi entrevistada pela Khatlen em sua coluna no site da CardPlayer (clique aqui para ver).

Mais do que a presença feminina nestes espaços, é fundamental que a visão delas sobre o jogo também esteja na mídia, pois se existe a diferença de gênero, é ela que ajuda a ampliar nosso entendimento de como o jogo se dá. Esta representatividade pode ser um elemento forte na compreensão da participação feminina no poker, pois elas ainda precisam lidar com a intimidação dos adversários nas mesas (refiro-me ao seu formato simbólico, que é elemento de estudo sociológico), e são subestimadas e alvo de preconceitos, como a Lizia apontou no artigo Poker, mulher e preconceito. Outra frase impactante é a de Vanessa Selbst, reconhecida jogadora norte-americana que afirmou que no mundo do poker nunca sofreu preconceito por ser gay, mas sim por ser mulher, confira aqui.

Do mesmo modo, jogadoras com mais experiência usam os estereótipos a seu favor, e lidam com esses obstáculos de forma peculiar, como se pode notar nesse texto da Carol Ventura para o PokerGirls. Contudo jogadoras que alcançam grandes premiações em torneios ainda precisam afirmar o óbvio, que podem jogar em pé de igualdade com os homens, tema explorado na entrevista que a jogadora Milena Magrini deu para o PokerDoc.

Você pode até falar que a quantidade de boas jogadoras é pequena se comparada com o mesmo montante masculino, ou até se basear em amostragem para concluir que na média as garotas precisam melhorar, mas isso não muda a perspectiva dessa questão, pois essa verificação está ligada diretamente à mesma inversão citada acima, onde as características tidas como negativas para o jogo precedem e bloqueiam qualquer novo entendimento. É como se utilizar de uma estatística para validar um argumento pré-estabelecido.

A massificação do poker ainda não passa pelas mulheres, elas são exceção. No site oficial da WSOP, os buy-ins feitos por mulheres na edição 2013 chegaram a pequena fatia de 5,1%, e no Brasil esse número é ainda menor, o Ladies Event da 1.a etapa do BSOP teve apenas 39 entradas, e a participação feminina no main event é muito pequena, na ordem de menos de 4% segundo o site PokerDoc, na própria entrevista da mesa-finalista Milena Magrini.

Ainda assim, há um novo contingente de boas jogadoras, que a exemplo de nomes como Alê Braga e Larissa Metran, se destacam, pois além do talento, têm oportunidade de trocar impressões e aprendizados com outros jogadores, seja porque estudam mais o poker, fazem cursos, estão mais inseridas na comunidade ou por conta de seus laços pessoais como namorados, maridos e amigos. Elas penetraram neste ambiente e conseguem se desenvolver sem que seja necessário antes disso ser classificada como mulher. No momento em que jogadores e jogadoras são tratados em pé de igualdade, a diferenciação perde seu sentido.

O poker como esporte está em face de uma grande oportunidade, pois em sua essência tem um caráter agregador e plural, pois não faz distinção, e por isso é convidativo. Nesse sentido, os torneios exclusivos para mulheres, os sites e os blogs escritos por elas não parecem ser o outro lado da moeda do sexismo, mas buscam ser um convite para que elas ingressem no poker.

Ainda há poucas garotas no pano, e se for preciso existir uma resposta para isso, a investigação tem que começar necessariamente por elas, e não vir de estatísticas e preconceitos. Talvez a maioria das mulheres simplesmente não goste, ou não considere o poker como uma atividade que as agrada. Se há poucas mulheres, talvez seja porque a mecânica do jogo não desperte o mesmo tipo de fascínio e sentido que têm para os homens, ou não carregue em si o tipo de ação que elas procuram.

Se o poker necessita atrair mais praticantes, o que é assunto para outro artigo, o caminho está na forma com a qual ele atende as necessidades e os questionamentos dos jogadores, sendo mulheres ou não.

 

Fotos: Shutterstock e arquivo pessoal (Lizia Trevisan). Fontes citadas: WSOP, Queens of Poker, Metro, PokerGirls, Barbarella Poker, MaisEV, Pokerdoc e CardPlayer Brasil