O saldo da WSOP 2014

 

Chega ao fim (ou quase) a WSOP 2014. Como espectadora pude perceber a invasão de brasileiros na Sin City, o que é muito bacana pois nos dá uma ideia da proporção que o Poker está tomando no Brasil. Porém há dois fatos, ou melhor, personalidades que se destacaram: Daniel Colman e Bruno Politano, o Foster.

Daniel Colman protagonizou uma polêmica no Big One for One Drop, evento com buy-in de um milhão de dólares, após vencer Daniel Negreanu no HU e sagrar-se campeão. Sua recusa em dar entrevistas somada a declaração justificando a mesma (que pode ser conferida neste link, matéria do Pokerdoc), foram mais emblemáticas que sua vitória.

Fato que me levou à uma reflexão, pois sou uma apaixonada pelo Poker. Isso nunca me impediu de ter uma visão crítica, tampouco de tomar atitudes afim de ao menos tentar contribuir para uma mudança positiva no que acredito ser necessário. Que o Poker é um universo ainda majoritariamente masculino, é sabido. Falando muito honestamente, me incomoda a pouca representatividade feminina e passei a questionar sobre os motivos para tal. Tentar buscar respostas se mostrou mais que improdutivo, assim nasceu o Queens of Poker. Ele ainda é um “bebê”, criado há poucos meses, mas tive gratas surpresas quanto ao Grupo: pessoas que acreditaram no nosso projeto e a união das gurias, sempre super receptivas para conosco e principalmente, torcendo umas pelas outras. Isso muito me comove, se tratando de uma atividade individual e altamente competitiva.

O Grupo demanda trabalho e tempo, que é muito restrito para mim, além dos parcos recursos que disponho. Sempre tive em mente a inserção e crescimento das mulheres no Poker, com o cuidado de não virarmos uma “distribuidora de brindes”. Queríamos algo que agregasse e criasse oportunidades. Com isso em mente, batemos de “porta em porta”, onde encontramos o “sim”, o “não” e as vezes nem a resposta. É bem triste esta última, pois tentamos fazer algo diferente, visando o crescimento do esporte em um público mais que promissor. Uma resposta é mais que gentileza, é consideração, humildade e respeito.

Sou muito grata a minha amiga Mercedes Henriques que mais que contribui, sem ela este não seria possível, ao Betmotion, nas pessoas do Leonardo Baptista e Fabrício Murakami que acreditam em nosso projeto e o tornaram possível. Khatlen Guse e Marco Naccarato são dois presentes que o Poker me trouxe, obrigada amigos! Tio Max, agradeço pelo espaço que nos cedeu e por proporcionar a mim, uma jogadora amadora, disputar eventos que minha bankroll não permite. A vocês amigos e parceiros do Poker que nos ajudam na divulgação do Queens of Poker, muito obrigada.

Dito isto, gostaria muito que Daniel Colman tomasse uma atitude afim de mudar o que acredita estar errado no Poker. Se eu posso fazer algo, ele com mais recursos e sob todos os holofotes do Poker, pode fazer muito mais. Acredito que atitudes falam mais que palavras e não gostaria que uma discussão tão pertinente quanto a levantada por ele findasse com uma imagem, a imagem de um homem sobre uma montanha de dinheiro com a mensagem “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”.

Deixando o “lado sombrio”, Bruno Foster: que belo presente nos deu. Empunhando nossa bandeira com orgulho de ser brasileiro, dividindo conosco esta grande conquista, o primeiro brasileiro na FT do Main Event da WSOP. Deste show de poker e patriotismo, obrigada! Obrigada principalmente por mostrar o “lado bom” do Poker.

Lízia Trevisan

Twitter @liziatrevisan

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Master Minds – A viagem!

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A segunda semana de fevereiro começou como todas as demais, muito trabalho, pouco tempo e muito vontade.

Mal sabia o trabalho e consequente tempo que este projeto demandaria, o que me afastou do estudo e jogo de Poker neste período. Lado ruim: ficar sem jogar. Lado bom: te afastar por um tempo do game te permite analisar melhor teu jogo, tua agenda e organização, aonde tu está e aonde quer chegar. Além é claro, de que o retorno a prática do esporte tem um gosto doce, uma vontade imensa de jogar e ser o último player a levantar da mesa, muito foco e concentração.

Estava a cerca de um mês importunando meu esposo perguntando diariamente “E aí, vamos ao Master Minds?”, sem uma resposta e com uma infecção de garganta que o acometeu na segunda-feira o prognóstico não era bom.

Mas no meio da semana a Mercedes, amiga e parceira no projeto, contatou o Igor Federal, personalidade que dispensa apresentações. Ele, pessoa muito solícita e educada, topou conversar conosco. A desculpa que me faltava.

Como foi tudo muito às vésperas, não conseguimos acompanhar desde o primeiro dia, sexta feira. Colocamos o pé na estrada, de Curitiba para São Paulo na manhã de sábado. Chegamos mais tarde do que planejado, viagem inteira com chuva, às três da tarde. Lamentavelmente, perdi a palestra do Akkari, justamente sobre mulheres no Poker.

A Jessica levou uma baita bad. Mesmo morando a duas horas do evento, chegou depois de mim. Carro quebrado no meio do caminho. =( Meu primeiro encontro “live” com ela foi breve, mas me despedi com a certeza de que encontrei a pessoa certa para o projeto quando vi em seus olhos um brilho, só por estar ali, naquele evento. Essa paixão pelo esporte, ou por qualquer coisa na vida, é na minha opinião de grande relevância para o sucesso.

Jessica Camargo
Jessica Camargo

Superadas as distâncias e adversidades, estávamos ali e a primeira coisa que fizemos foi ver a “grade” de palestras, todas gratuitas. Engatamos na palestra do Mojave, sobre migração do Holdem para Omaha. Adorei de cara, pois é difícil encontrarmos material, ainda mais palestra sobre essa modalidade. Ele ganhou uma fã só ao pronunciar a palavra “Badugi”. Quando conheci o Holdem, em 2008, baixei o Poker Stars, crente que haviam duas modalidades de Poker: Five Card draw (o poker fechado) que jogava a feijão com meu pai e o Texas Holdem. Quando vi no PS Omaha, Omaha Hi Lo, Badugi, Horse, 8-Game, 2-7 Triple Draw, 2-7 Single Draw, Razz, Stud, Stud Hi Lo, …, pirei literalmente.

Decidi que não jogaria o Holdem até aprender a jogar tais modalidades, aprendizado muito básico, lendo os tutoriais sobre as regras dos jogos disponíveis num link com acesso pelo lobby do PS e treinando em todos os freerolls disponíveis. Dito isto, vocês conseguem mensurar tamanha a minha satisfação, sendo espectadora de uma palestra com um grande profissional, um cara que eu conhecia das notícias, das capas de revista e que de muito bom grado estava ali, de forma gratuita ministrando a palestra, compartilhando seu conhecimento e experiências. Excelente a palestra, o Mojave é um cara carismático, com um conhecimento monstro sobre o jogo. Ele fará em breve uma série de palestras sobre estas modalidades e se estiver dentro do meu bankroll, certamente as verei. Puxei um dos brindes do Mister Beer, patrocinador do evento, ao responder a pergunta sobre uma das diferenças básicas entre Holdem e Omaha.

Depois da palestra, encontrei algumas das meninas que participam do Akkari Team Micro neste mês, o que foi super legal, pois acompanho a trajetória e torço muito por todas. Além do papo super bacana, foi muito bom ouvir “Você que é a Lizia?”. Poxa, eu não sou ninguém no Poker, faço parte da grande maioria de jogadores amadores, sem nenhum resultado expressivo. Obrigada gurias, Chaiane Araújo, Tatiane Schmitt e Ketelin Stachelski, por serem queridas e atenciosas comigo. Tive certeza de que escolheram mulheres especiais e merecedoras para este time.

Encontrei muito brevemente a Fernanda Lopes e a Renata Teixeira, igualmente queridas e simpáticas.

Tive o prazer de conhecer o Ivan Ban Martins, um dos comentaristas da TV Poker Pro. Sou telespectadora assídua e fã dos apresentadores, não foi surpresa nenhuma constatar que ele é exatamente a pessoa que transparece nas transmissões, super bacana, carismática e bem humorada. Quando confessei que sempre os perturbo nas transmissões ele solta a falinha “Bem que eu estranhei a tua ausência no Twitter”! rsrs

Senti-me cada vez melhor e mais inserida naquele contexto, tudo “culpa” dessas pessoas generosas, que por alguns minutos falam contigo e te olham nos olhos.

Engatamos em mais uma palestra, do Gabriel Dechichi Barbar, muito jovem, mas a genialidade em pessoa. Profundo conhecedor dessa super máquina que é o nosso cérebro. Vocês precisam ver isso para entender a genialidade deste rapaz:

Aprendemos muito sobre concentração e como transformar toda a pressão e adrenalina, comuns em torneios de Poker, em combustível para a resolução de problemas.  Eeeeee mais um kit Mister Beer puxado! =D

Mais um monstro do jogo ministrando palestra, Thiago Decano. Falou sobre apostas, motivos para fazê-las, se por valor ou blefe, ilustrou com exemplos e fez um nó na minha cabeça. Perguntas aparentemente simples, mas que te fazem repensar todo o teu jogo. A palestra termina e um pensamento fixo em minha mente: quanto mais eu aprendo, fica muito claro que o caminho ainda é longo.

Saímos a caça da lenda Igor Trafane, o Federal. Ele jogava o Main Event do Master Minds, nossa tarefa não seria fácil. O encontramos no break, ao lado do Akkari.

O break era de quinze minutos, pouquíssimo tempo para tantas perguntas que temos, tanto conhecimento que o precursor do Poker no Brasil possui. Nós que estamos no início dessa caminhada, que é tentar ajudar e unir as mulheres praticantes do esporte, não teríamos melhor oportunidade do que conversar com quem sabe, mais que ninguém, as dificuldades e desafios que iremos confrontar. Nos despedimos com novo encontro marcado, no BSOP Foz do Iguaçu.

Este será meu desafio, puxar uma vaga por satélite para o Evento que iniciará, por essas estranhas coincidências da vida, no dia 20 de março, meu aniversário.

Sobre o Master Minds, é um evento obrigatório para todos os praticantes de poker. Quem tem a oportunidade, não pode deixar de ir. Minha crítica: jogadores de poker amadores, onde vocês estavam? Com um monte de feras, ministrando palestras gratuitas que deveriam ter filas quilométricas e não atingiram a lotação máxima. Grandes oportunidades desperdiçadas.

Ficou a vontade de jogar e assistir as demais palestras de tantos profissionais.

Com essa fome de jogo, cheguei de viagem no domingo a tempo para o torneio inaugural do Grupo, satélite online no 888 Poker valendo uma vaga para um dos Eventos da Copa do Mundo de Poker que será realizada em Porto Alegre no mês de maio. Abri a transmissão da TV Poker Pro, em curso o torneio coach, excelente. Depois de jogar a FT inteira short e encarar um HU duríssimo contra a Adriana Maia, consegui cravar e pela segunda vez terei o privilégio de participar de um Evento do TioMax. Muito obrigada pela oportunidade e por apoiar nossa iniciativa! Mega Evento que será um grande sucesso!

http://www.copadomundodepoker.com.br/

Não posso deixar de agradecer a minha amiga Mercedes, grande responsável pela nossa presença no evento. Tu fez muita falta!

Meu esposo Robert, parceiro na vida e no poker, obrigada. Sem teu apoio e paciência, nada disso seria possível. Aproveito para dar dica de presente de aniversário: começa com BS e tem OP no final!  ;D

Lízia Trevisan – Twitter @liziatrevisan

Poker, mulher e preconceito.

Uma das mais fantásticas características do Poker é a inclusão. Qualquer pessoa, de variadas idades, de ambos os sexos, independente do grau de instrução, com ou sem deficiência física, pode praticar o esporte.

Dá para mensurar o quão democrático isto é?! Apesar do grande apelo desta, vemos uma maioria esmagadora de homens, nos eventos live e online.

Acredito que o número de mulheres aumenta a cada dia, mas ainda assim a disparidade é absurda.

Vamos aos números:

De acordo com o site IG: “O sexo feminino representa 5% dos jogadores.”

No ranking geral do Main Event do BSOP 2013, a mulher melhor colocada foi Simone Zanetti na 57ª colocação. A próxima jogadora melhor colocada no ranking foi Patricia Kim Yamashita, na 91ª colocação.

Ainda no ano de 2013, não tivemos nenhuma mulher em FTs do Main Event.

Até hoje, tivemos uma mulher campeã de um Main Event do BSOP. Gabriela Belizário venceu a etapa de Belo Horizonte em 2008.

Notório que a pouca representatividade das mulheres decorre do pequeno número de jogadoras.

Fica a pergunta: Por que há tão poucas mulheres praticantes de poker?

Se observarmos o universo dos jogos, veremos que a maioria é de homens.

Por exemplo, na relação de pessoas que conhecem que gostam de vídeo game, a maioria não é de homens?

Nos churrascos, as esposas/namoradas não torcem o nariz quando o truco começa?

Talvez esta competitividade que envolve os jogos seja inerente à personalidade masculina.

Qual a opinião de vocês?

Em contrapartida, as mulheres que gostam de jogos e querem jogar poker tem dificuldade em encontrar pessoas para conversar/aprender.

O preconceito com as jogadoras também é grande. Vejam o depoimento de jogadoras:

“Nunca passei por situações constrangedoras ou explícitas de machismo. Mas já tomei ‘falinhas’ desnecessárias e com segundas intenções. Algo insinuando eu ser fraca de poker apenas por ser mulher… falinha _ uhmm hoje está fácil… só mulheres na canhota ‘vo’ forrar…” Jessica Camargo

“O mais absurdo que ouvi foi um: “lugar de mulher é na cozinha, não é em mesa de poker não”. Aqui, eu sofro muito machismo no live sim. E sou muito caçada nas mesas… Mas isso acaba sendo mais motivador ainda. “ Luany de Macêdo

“Infelizmente ainda existe um pouco de machismo no poker – as mulheres, no live, ou são “caçadas” ou são “respeitadas” além do normal. Mas confesso que não acho ruim esse machismo no poker (no live uso a imagem de mulher para ser lucrativa).” Adriana Maia

Posso parecer controversa, mas sou contra torneios exclusivos para mulheres ou mesmo grupos como o nosso, onde homens não são aceitos. Acredito que essa separação de gênero vai contra o espírito do poker, como esporte democrático.

Mas analisando como mulher, é deveras intimidador chegar num salão, onde no máximo 5% das pessoas são mulheres, sentar, jogar, calcular as fichas no pote, ouvir falinhas por ser mulher, ser subestimada (ok, esta parte acho vantajoso rsrs) encarar os outros jogadores (HOMENS) e ser encarada pelos mesmos.

Se é difícil para quem joga, é ainda mais para as jogadoras iniciantes.

No atual quadro é mais do que válido, são necessários torneios, teams, grupos, promoções e o que mais for ajudar a aumentar em quantidade e qualidade o field feminino.

O grupo visa ser um local democrático para que todas as jogadoras, em diferentes níveis de aprendizado, tenham um espaço só delas, mas sonho com o dia em que estes não terão mais razão de haver e que queens e kings dividirão o mesmo espaço, com igualdade e respeito.

Até breve! 😉

Lízia Trevisan – Twitter @liziatrevisan