Egopoker

Não é difícil associar a egolatria e a mitologia ao poker. A lenda mais famosa sobre o ego é o mito de Narciso, que se apaixonou pela própria imagem e morreu por isso. Narciso não simboliza apenas a vaidade, mas também a insensibilidade. A própria raiz das palavras Narciso, narcisismo e narcótico é derivada da palavra grega narke, que significa entorpecido. É como estar alheio a realidade, preso unicamente ao que você representa, à sua imagem, a idolatrar si mesmo sem perceber o mundo à sua volta.

É dessa forma que Narciso morre, após ser induzido pela deusa Nêmesis a permanecer a beira de um lago contemplando a própria imagem. Narciso foi derrotado por si mesmo.

Na psicologia, o ego é umas das partes da estrutura da mente que reúne nosso senso de identidade, realidade e personalidade, ou seja, é nossa ligação com o mundo exterior, é a via de sentido que relaciona nossa presença ao ambiente. Sob o viés psicológico, o ego em si não representa uma ameaça, mas algo que vai construir a confiança.

Já no senso comum, quando tratamos do ego, estamos falando de vaidade, da vontade de provar ser melhor que os adversários a qualquer custo. Talvez, sob esse aspecto, o ego é aquele que justifica as jogadas mais estranhas, aquelas onde fichas são armas de uma batalha vencida, onde a lógica passou longe, seja numa mesa entre amigos, seja na final da WSOP. Por ele, entramos em combates desnecessários, blefamos potes sem motivo, tentando reafirmar coragem, uma coragem impensada e impulsiva que nos tira do próprio centro, por nada. A tentativa boba de parecer mais durão, afirmar a masculinidade, um jeito irracional de demonstrar superioridade, nem que seja na força, na porrada. A velha história do torcedor que vai ao estádio assistir ao seu time preferido enquanto enche de sopapos o torcedor rival faz sentido, é a válvula de escape de egos inflamados por um orgulho irracional, em busca de violência gratuita.

Violência esta, repudiada pelas mulheres, que procuram diversas coisas nos jogos, mas dificilmente esse tipo de afirmação. Talvez a presença delas no poker possa ser uma saída para tal necessidade de afirmação, e embora mulheres sejam conhecidas por serem muito competitivas entre si, ao menos não carregam essa indesejável qualidade, mas isso já é outro assunto.

Para qualquer jogador, ego é bom quando se torna autoconfiança, do contrário, quando vira arrogância e alimenta a vaidade, traz mais resultados desfavoráveis do que benefícios. O notável é que no poker essa vaidade é fatal. A cada oponente subestimado, a cada momento que você julga o adversário e o coloca numa condição inferior à sua, você não está atento o suficiente para o mundo ao seu redor, seus alertas ficam desligados, você considera os outros previsíveis e consequentemente a chance de ser surpreendido aumenta, afinal, na outra ponta há um cara pensante, que está louco para pegar as suas fichas.

Se o peixe morre pela boca, o jogador só perde pra si quando perde para sua vaidade, quando fica mais atento ao próprio reflexo em vez de olhar a sua volta.

imagem: Shutterstock

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