Entrevista com Marco Naccarato

Marco Naccarato é autor do livro Floating in Vegas e idealizador do site Metapoker.

nacca_wsopNaccarato disputando evento da WSOP, em 2011

Queens of Poker: Fale sobre você e como o poker está inserido no teu quotidiano.

Naccarato: Sou designer gráfico há 20 anos e empresário faz doze anos. Jogos de cartas sempre foram presentes desde a infância, mas tive contato com o poker apenas em 2003, participando das primeiras mesas de 5-card draw com amigos.

O poker se tornou parte do meu quotidiano quando comecei a jogar hold’em em 2008 e organizar um torneio que se tornou uma série disputada até hoje, o AdT Poker. Como o jogo me fisgou, fiquei motivado a praticar, e depois de ir ao cassino Conrad no Uruguai em 2009, decidi fazer uma viagem para Las Vegas, que se transformou em mais algumas viagens, no livro Floating in Vegas, e em todos esses textos que venho publicando desde 2012, que culminaram no site Metapoker.

Hoje o poker ocupa parte considerável do meu dia-a-dia.

nacca_winOpenEtapa do Paulistano Open Poker, em 2012, torneio que teve promoção do livro Floating in Vegas, e que foi vencida pelo autor

Queens of Poker: Por que jogar poker? Qual a tua predileção, online ou live? Por quê?

Naccarato: Jogo poker porque é fascinante, porque é um jogo completo. Gosto mais de poker live, é também onde tive meus melhores resultados. Aliás, sempre achei curioso o termo “live”, pois o poker é jogado originalmente ao vivo, mas a quantidade de jogadores que tomaram contato com o jogo na última década foi tão massiva e significativa, que o termo se inverteu, gerando essa denominação de poker live.

No live, a percepção e a psicologia têm um papel mais determinante na forma de jogar, o que tem muito a ver com meu jeito de jogar, por isso me sinto mais competitivo e confortável, logo prefiro jogar ao vivo.

nacca_winPLOCaesarsCampeão em 2013 do evento #38 – Pot Limit Omaha, da série do Caesars Palace em Las Vegas

Queens of Poker: Acredita que qualquer pessoa possa ser lucrativa no poker? Por quê? Quais características são comuns a bons jogadores?

Naccarato: Seguramente, desde que ela goste e se dedique. Lucratividade no geral está ligada a metodologia, se você estudar, praticar bastante e tiver uma boa orientação, os resultados aparecem. Não dá pra atingir nenhum estado de aprimoramento sem disciplina, dedicação e perseverança. Tem que ralar mesmo.

Alguns jogadores, depois de aprenderem o básico, ficam com uma impressão que dominam o jogo, e param de perceber a dinâmica e as nuances do poker, e assim se tornam reféns do baralho, por isso, bons jogadores normalmente estão um passo a frente dos demais, eles enxergam coisas que estão veladas para a maioria.

Outra característica fundamental do bom jogador é o autocontrole.

Queens of Poker: No livro, tu narra as experiências vividas nas Poker Rooms em Vegas. O que o motivou a escrever sobre elas?

Naccarato: Nunca tive a pretensão de ir pra Vegas e nem de escrever algo sobre, mas a oportunidade apareceu por conta de uma viagem a negócios, e quando retornei, muita gente me perguntava como era lá, qual o nível dos jogadores, qual a sensação de jogar num cassino, entre outras coisas. Há tempos eu vinha ensaiando para escrever um livro, e a viagem me deu o tema.

Esse foi o estímulo inicial, e como consegui tirar uma grana logo nos primeiros dias da viagem, comecei a anotar os resultados, algumas mãos e minhas impressões sobre o local, e assim tive material pra começar o relato.

Posteriormente, percebi que o livro poderia ser um pequeno guia pra quem tem vontade de ir pra lá, e, além disso, uma maneira de contribuir para o poker e de mostrar uma ideia diferente.

O livro apresenta o poker pra quem não tem contato com o jogo, mas é curioso sobre esse universo, e mostra para a grande maioria dos praticantes que é possível ir para Las Vegas e vencer, por isso coloquei todos os resultados de cada um dos 52 torneios, passando por vitórias e derrotas, mas mostrando as sensações envolvidas, do prazer da vitória às decepções do grind.  Acho que por isso o livro ficou próximo da realidade tanto de amadores quanto de veteranos, e assim foi bem recebido.

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Queens of Poker: Podemos observar que no poker live, assim como online, há muitos jogadores recreativos, onde o jogo é diversão e o resultando é secundário. Inclusive é possível consumir bebidas alcóolicas durante os torneios. Em teu livro, tu relata que as consumia durante o grind em Las Vegas. Qual a tua opinião sobre isso?

Naccarato: Os jogadores recreativos e amadores são a maioria dos praticantes, e há poucos relatos ou notícias sobre esse universo. Em clubes menores e home games, o consumo de bebidas é comum, faz parte do “pacote” todo de ir jogar, se sociabilizar e tal. É como ir ao cinema e comprar pipoca, o objetivo é curtir o momento.

Este é um ponto no livro que muita gente torceu o nariz, quando ofereci o livro em algumas editoras, não quiseram comercializar o relato por conta disso, afinal é difícil nos dias de hoje quererem atrelar o consumo de bebidas ao poker, pois a briga é validá-lo como esporte mental, quero dizer, como o poker é um esporte se você fica enchendo a cara? Todo o mercado de poker quer desmistificar a atividade, tirar os estereótipos e validar sua prática, então se evita de certa forma falar sobre isso, mas é algo normal no poker recreativo.

Em nível profissional não há espaço para isso, não dá pra beber durante um torneio inteiro e achar que você vai tomar ótimas decisões depois de seis ou sete horas jogando direto.

No livro, estou jogando em Vegas, torneios relativamente baratos, e no período das minhas férias, por isso não faria diferente, estava me divertindo. Mesmo assim, quando encarei torneios maiores ou quando estava levando com mais seriedade o grind, eu evitava beber.

Queens of Poker: Da tua experiência em Vegas, identificaste diferenças nos torneios, estrutura e jogadores?

Naccarato: Há diferenças. Basicamente nas poker rooms dos cassinos a predominância é de amadores, e o nível técnico dos fields dos torneios aumenta quase que na proporção do buy-in, ou seja, nos torneios baratos os jogadores estão lá por lazer, jogam por diversão, afinal é uma cidade em “férias”. Nos buy-ins acima de cem dólares você já encontra adversários mais preparados, e nos grandes torneios e cassinos mais caros o nível é outro.

No geral, a estrutura nos torneios baratos é turbo, blinds de 15 ou 20 minutos e poucas fichas. Já cheguei a jogar torneio de 60 dólares com 1,5k fichas e blinds de 15 minutos, é preciso se adaptar.

Falando mais especificamente dos jogadores, o que se nota é uma maior presença feminina nos cassinos, e o poker é muito presente na sociedade norte-americana, eles jogam desde muito cedo em casa, conhecem as regras e tal, têm uma noção etc. Guardadas as proporções, é como o futebol para os brasileiros, no sentido que representa um bem social.

Queens of Poker: Em comparação às Poker Rooms dos cassinos de Vegas, como estão os clubes de poker brasileiros? E os nossos dealers?

Naccarato: Não frequento muito, mas já estive em alguns clubes de poker aqui em São Paulo, no Vegas, no H2 Club (na sede antiga) e em vários clubes menores como o Alphaville Poker Club, Moema 44 do André Pagnillo, e também o No Limit na vila Madalena, e no geral as casas não perdem muito para as poker rooms de Vegas, aliás, havia salas de poker nos cassinos piores em ambiente e organização se comparadas a alguns desses clubes daqui, mas, de dois anos pra cá os cassinos mais antigos deram lugar a cassinos maiores e bem estruturados, com poker rooms remodeladas.

Claro que é diferente você jogar na poker room do Wynn ou do Bellagio, ou mesmo entrar na sala de poker do Caesars, pois a estrutura é outra, embaralhadores automáticos nas mesas, serviço e tal, mas a cidade é feita em torno do jogo, não podia ser diferente.

O nível dos dealers é parecido, mas tenho a impressão que eles são mais respeitados por lá. Claro que tanto lá quanto cá, se o dealer fizer merda, os jogadores caem matando, mas em Vegas dificilmente vi jogador reclamar de bad beat para o dealer.  Vegas tem algumas coisas curiosas, por exemplo, em cassinos menores há predominância de dealers orientais, às vezes nem falam inglês direito, e no geral, seja numa sala de quatro mesas ou na poker room do Aria, os dealers são mais velhos. Inclusive disputei um torneio da Série de Verão do Caesars onde conheci uma dealer que deu cartas na primeira edição da WSOP, é uma senhora alta e de longos cabelos brancos, rápida no gatilho, deixa muito marmanjo no chinelo.

Queens of Poker: O Brasil é o mercado que apresenta o maior crescimento em número de jogadores. Vemos a crescente abertura de clubes, criação de Teams, oferta de coaching, sites de conteúdo, etc. Qual o papel do teu site, o Metapoker, neste processo?

Naccarato: Li recentemente uma matéria que falava sobre a expansão do poker no bloco dos BRICS, e certamente Brasil e Rússia têm os maiores e mais emergentes mercados. Isso é ótimo em qualquer aspecto, ajuda a desmistificar o poker, atrai mais praticantes, enfim, ajuda a desenvolver a indústria como um todo.

Certamente o conteúdo gerado nesse mercado também tende a se diversificar, pois tem mais gente se envolvendo com o mundo do poker, e consequentemente mais gente falando sobre. É nesse espaço que entra o Metapoker. De início criei o site para juntar todo o conteúdo que vinha publicando no Aprendendo Poker e no Pokerdicas, mas com o tempo consegui escrever mais artigos pro Metapoker, e o site acabou tomando esse formato, trazendo essencialmente artigos e crônicas. Ele não é um site de notícias, não coloco notícia de cravadas por exemplo, acho que já tem muito site fazendo bem isso, mas quando pinta uma notícia por lá, é porque tem algo de diferente, uma novidade incomum e tal. Fomos o primeiro site de poker a anunciar o torneio do Juventus, também anunciamos o lançamento de um livro de cash games ilegais na Itália, mas o forte do site é sua abordagem mais reflexiva sobre o poker, através dos artigos e crônicas.

Tem muito leitor que me encontra, comenta ou manda email falando, – não entendi porra nenhuma do que você quis dizer naquela crônica… Por outro lado é parte da ideia do site gerar esse questionamento, e gerar com isso novos entendimentos. É assim que entendo que estou tratando o leitor com respeito, e gerando conteúdo que estimule um olhar mais crítico. É que hoje tudo é muito resumido, rápido e raso, há uma tendência por procurar respostas prontas, mas se debruçar em algo, com todo o esforço para entender é o que difere o jogador mediano do bom jogador, se o cara não tem paciência pra interpretar um texto, onde ele vai achar saco pra entender um jogo tão complexo como o poker?

Um jogador pode decorar um range de mãos pra abrir em MP ou pode procurar entender a importância da posição. No primeiro caso, trata-se de um método, no segundo caso, estamos falando de um conceito, o Metapoker trabalha nos conceitos. Não existe um só jeito de olhar o poker, bem como não deve existir apenas uma forma de comunicá-lo, e quanto mais variadas forem essas abordagens, mais teremos assuntos diferentes e pertinentes para discutir, é isso que enriquece o jogo e a visão que temos dele.

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Queens of Poker: Acredita que há um estereótipo sobre as mulheres, jogadoras de poker?

Naccarato: Há estereótipos para mulheres tanto quanto há para homens. O problema é que no caso da mulher, a justificativa sempre recai no fato de ser mulher, isso que é diferente. Pega um jogador ruim cometendo erro, ele só jogou mal, mas se for mulher, é porque é mulher, é desatenta, joga na intuição, é insegura, essas coisas. Tanta mulher por ai provedora de família, empresária, com altos cargos executivos… É no mínimo uma contradição achar que mulher é menos capaz no poker. Foi esse pensamento que me levou a escrever o artigo sobre as mulheres, publicado no Metapoker.

Queens of Poker: Utiliza uma estratégia diferente contra jogadoras? É possível identificar características específicas, comuns as mulheres que jogam poker?

Naccarato: Tento utilizar uma estratégia diferente para lidar com cada adversário em específico, sejam homens ou mulheres. O que ocorre é que é fácil identificar um comportamento ou um padrão nos adversários que não sabem jogar ou estão se desenvolvendo e aprendendo, e você já sabe como contra-atacar certas jogadas, justamente porque você passou por isso. Mas no geral, se usa isso pra tipificar os jogadores, e rotular é o jeito mais fácil de subestimar a capacidade do adversário, e subestimar o outro é fechar seu campo de ação e percepção. O que quero dizer é que quando você identifica que pode explorar seu oponente porque o julga fraco, você acaba desligando os alertas, porque já tem um veredicto sobre como ele joga, e é aí que você é surpreendido.

Por isso procuro deixar esses pré-julgamentos de lado.

Queens of Poker: Quais os pontos fortes e fracos das jogadoras, de acordo com a tua experiência?

Naccarato: Homens e mulheres têm características diferentes, como cada um tem suas características. Um bom jogador vai tentar usar ao máximo suas características boas e melhorar onde sente que está atrás. Se as mulheres são dedicadas, como se pode notar no trabalho e na vida familiar por exemplo, elas devem usar isso à seu favor no poker. Vou usar um clichê, se como dizem, mulheres têm uma intuição apurada, elas devem investigar como essa característica se encaixa na lógica do jogo, se serve para o jogo e como se aproveitar dela, seja lá como cada uma entende o que significa intuição. Acho mais válido essa abordagem do que tipificar.

Esse papo que é natural mulher ser insegura ou desatenta é bem questionável. A única coisa natural no jogo é o jogar, tudo o que se faz na mesa é tentar manter o mais longe possível o que é natural, o que é impulso, é esse controle que bons jogadores buscam.

Queens of Poker: Há previsão de um novo livro? Poderia adiantar algo sobre o projeto?

Naccarato: Já estou trabalhando diretamente no novo livro há oito meses, ele não tem muito a ver com o Floating in Vegas, pois estou tentando trazer uma nova abordagem para o poker através da filosofia, e isso tem me tomado muito tempo e energia, por isso ainda não tenho previsão de término, mas estou correndo.

nacca_winQuadMais um Heads up no small stakes de Vegas

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