Por uma perspectiva feminina no poker

Em junho do ano passado eu estava em Las Vegas, durante a WSOP, e aproveitava o intervalo de torneios noturnos da cidade pra me enfiar nas mesas de cash $1/$2 do Bally’s, algo que fiz repetidas vezes nesse cassino que nos hospedou. Em todas as noites que estive lá apanhando do baralho, notei dois jogadores regulares que faziam sessões longas e sempre saiam com dinheiro no bolso. Eram duas mulheres, uma mais jovem, sempre acompanhada pelo seu pai, também jogador, e outra, de origem oriental, mas provavelmente norte-americana.

Por três vezes presenciei a jogadora oriental como pivô de situações desconfortáveis e seguidas de bate-boca. Numa dessas, um senhor de estilo cowboy não poupou xingamentos depois de perder mais um pote pra ela. A falta de respeito foi logo coagida pelo floorman, mas mesmo assim ela continuava ouvindo insultos do “cavalheiro” a cada órbita. Pouco antes, ela tinha ganhado uma mão num spot confuso por conta de alguém ter mostrado as cartas antes do tempo, o que gerou os primeiros comentários negativos do cowboy, sempre atrelados ao fato da jogadora ser mulher.

Este é um exemplo do que ainda acontece, é incomum, é um extremo, mas serve para demonstrar um aspecto anterior, que é o estereótipo de que a mulher é sempre desatenta, não utiliza a lógica tanto quanto os homens, joga de forma emocional, joga na intuição. Uma mulher é café com leite, ou joga menos que você até o momento em que puxa um pote seu, e aí, quando isso acontece, a conclusão é que ela deve ter feito uma jogada errada e injustificável, ou em último caso, deu sorte. Este é parte do montante de características que refletem a ideia pronta do que é ser uma mulher nas mesas, mesmo sabendo que essas características estão presentes em ambos os gêneros. E assim, evidentemente, a repetição desse discurso o torna parte da verdade, senão toda ela.

O que incomoda é perceber que há uma inversão na forma como se coloca a questão, onde o fato de ser mulher pressupõe o estado das coisas. O poker é uma atividade de maioria masculina, onde o discurso dominante se apóia na técnica. Se um homem comete um erro por jogar de forma emocional, ou se ele perde o controle, isso se apresenta como uma falha, algo para ser corrigido. Porém no mesmo caso, se for uma mulher a cometer o erro, a diferenciação é automática, como se a capacidade feminina em lidar com aquilo fosse reduzida.

Esse é o erro de compreensão proveniente de um sexismo velado e presente no mundo do poker. Na medida em que se categoriza a mulher negativamente como um jogador diferente, os problemas delas também parecem ser diferentes, e seus erros identificáveis como típicos das mulheres. Ninguém identifica e destaca uma boa jogada feminina, apenas uma boa jogada, por outro lado, erros femininos são destacados como típicos.

Desta forma, o problema não está no fato dessas características estarem presentes e notáveis nas mulheres, o problema é que tomar isso como algo natural retira a possibilidade de discussão desses temas, afinal é algo considerado “normal”, não passível de questionamento.

Por isso é cada vez mais importante num jogo em expansão como o poker, que as mulheres se manifestem e gerem representatividade. Se a falta de mulheres é observada nas mesas, sua falta opinando sobre o mundo do poker também é notada. Felizmente temos iniciativas como o Barbarella Poker e a coluna Mulheres no Feltro da Khatlen Guse, o blog da Camila Kons no MaisEV, o PokerGirls, e o recém lançado Queens of Poker, um espaço dedicado às mulheres e fruto do entusiasmo de Mercedes Henriques, Jessica Camargo e de Lizia Trevisan, que inclusive foi entrevistada pela Khatlen em sua coluna no site da CardPlayer (clique aqui para ver).

Mais do que a presença feminina nestes espaços, é fundamental que a visão delas sobre o jogo também esteja na mídia, pois se existe a diferença de gênero, é ela que ajuda a ampliar nosso entendimento de como o jogo se dá. Esta representatividade pode ser um elemento forte na compreensão da participação feminina no poker, pois elas ainda precisam lidar com a intimidação dos adversários nas mesas (refiro-me ao seu formato simbólico, que é elemento de estudo sociológico), e são subestimadas e alvo de preconceitos, como a Lizia apontou no artigo Poker, mulher e preconceito. Outra frase impactante é a de Vanessa Selbst, reconhecida jogadora norte-americana que afirmou que no mundo do poker nunca sofreu preconceito por ser gay, mas sim por ser mulher, confira aqui.

Do mesmo modo, jogadoras com mais experiência usam os estereótipos a seu favor, e lidam com esses obstáculos de forma peculiar, como se pode notar nesse texto da Carol Ventura para o PokerGirls. Contudo jogadoras que alcançam grandes premiações em torneios ainda precisam afirmar o óbvio, que podem jogar em pé de igualdade com os homens, tema explorado na entrevista que a jogadora Milena Magrini deu para o PokerDoc.

Você pode até falar que a quantidade de boas jogadoras é pequena se comparada com o mesmo montante masculino, ou até se basear em amostragem para concluir que na média as garotas precisam melhorar, mas isso não muda a perspectiva dessa questão, pois essa verificação está ligada diretamente à mesma inversão citada acima, onde as características tidas como negativas para o jogo precedem e bloqueiam qualquer novo entendimento. É como se utilizar de uma estatística para validar um argumento pré-estabelecido.

A massificação do poker ainda não passa pelas mulheres, elas são exceção. No site oficial da WSOP, os buy-ins feitos por mulheres na edição 2013 chegaram a pequena fatia de 5,1%, e no Brasil esse número é ainda menor, o Ladies Event da 1.a etapa do BSOP teve apenas 39 entradas, e a participação feminina no main event é muito pequena, na ordem de menos de 4% segundo o site PokerDoc, na própria entrevista da mesa-finalista Milena Magrini.

Ainda assim, há um novo contingente de boas jogadoras, que a exemplo de nomes como Alê Braga e Larissa Metran, se destacam, pois além do talento, têm oportunidade de trocar impressões e aprendizados com outros jogadores, seja porque estudam mais o poker, fazem cursos, estão mais inseridas na comunidade ou por conta de seus laços pessoais como namorados, maridos e amigos. Elas penetraram neste ambiente e conseguem se desenvolver sem que seja necessário antes disso ser classificada como mulher. No momento em que jogadores e jogadoras são tratados em pé de igualdade, a diferenciação perde seu sentido.

O poker como esporte está em face de uma grande oportunidade, pois em sua essência tem um caráter agregador e plural, pois não faz distinção, e por isso é convidativo. Nesse sentido, os torneios exclusivos para mulheres, os sites e os blogs escritos por elas não parecem ser o outro lado da moeda do sexismo, mas buscam ser um convite para que elas ingressem no poker.

Ainda há poucas garotas no pano, e se for preciso existir uma resposta para isso, a investigação tem que começar necessariamente por elas, e não vir de estatísticas e preconceitos. Talvez a maioria das mulheres simplesmente não goste, ou não considere o poker como uma atividade que as agrada. Se há poucas mulheres, talvez seja porque a mecânica do jogo não desperte o mesmo tipo de fascínio e sentido que têm para os homens, ou não carregue em si o tipo de ação que elas procuram.

Se o poker necessita atrair mais praticantes, o que é assunto para outro artigo, o caminho está na forma com a qual ele atende as necessidades e os questionamentos dos jogadores, sendo mulheres ou não.

 

Fotos: Shutterstock e arquivo pessoal (Lizia Trevisan). Fontes citadas: WSOP, Queens of Poker, Metro, PokerGirls, Barbarella Poker, MaisEV, Pokerdoc e CardPlayer Brasil

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